Vivemos hoje num mundo mais perigoso que ontem. São muitas as manifestações de que alguma coisa realmente está a correr mal.

Por um lado, temos a escalada armamentista por parte das grandes potências do mundo, que ao invés de alocar o seu orçamento para o desenvolvimento social e económico, e para a sustentabilidade ambiental, preferem gastar milhões em armamento que, um dia, pode acabar com o mundo tal como o conhecemos; por outro lado, vemos o agravamento das condições do tempo, as secas, os fenómenos extremos.

A recente escalada de tensão entre a República Popular da Coreia e os Estados Unidos da América, alertam-nos para as fragilidades que existem hoje no relacionamento entre países e entre povos, o que pode encaminhar o mundo para uma difícil e perigosa situação. Vivemos num mundo de recursos escassos e espaço igualmente limitado, o que nos coloca a importante tarefa de reparti-lo e frui-lo colectivamente, como sociedade plural que somos. Não se trata de uma mera concepção filosófica ou de uma simples abstracção, mas sim de uma realidade muito concreta e palpável: somos cada vez mais a habitar neste planeta, o que torna cada vez mais exigente a sua fruição de forma igualitária e justa.

Do ponto de vista histórico, podemos dizer que a Europa se encontra no seu período maislongo de paz duradoura: desde a II Guerra mundial que não se assiste no velho continente aconfrontos armados. Mas será tempo e hora de ficarmos descansados?Temos assistido a uma vontade quase generalizada dos estados-membros de constituiruma força militar europeia e de um orçamento militar comunitário, isto a par da NATO. É atendência do mundo: militarizar-se quando se apregoa veementemente a desmilitarização, procurar expandir programas nucleares quando se apela ao fim do nuclear. É, portanto, uma realidade complexa esta que estamos a viver, onde nunca sabemos quem é quem e o que pretende alcançar. Aquilo que sabemos é que este mundo onde vivemos não é o mesmo de há cem anos, nem será certamente o mesmo daqui a outros tantos, isto porque o ritmo desenfreado do Homem na persecução do lucro não teve nem tem nunca em conta os danos irreversíveis que a sua sede de sucesso poderia fazer no meio onde vivemos as nossas vidas.

São cada vez mais os fenómenos extremos que assolam regiões onde nunca tinham sucedido:Portugal passou recentemente por uma seca que há muito não se via e que teve repercussões sérias em alguns sectores, particularmente na agricultura. Estes fenómenos são fruto da acçãodirecta do Homem no meio que o rodeia, e assim, perfilamo-nos cada vez mais como osprincipais candidatos a carrascos da nossa própria raça. E se tivermos pressa, porque esperarpelas alterações climáticas, se podemos lançar o mundo num caos nuclear de característicasapocalípticas? De que é que estamos à espera? Lancem a primeira bomba! Que ninguém vaiestar aqui para julgar ninguém, até porque quando isso acontecer, aquele que poderia seralguém já não o é por impossibilidade de sobrevivência humana.

Volto à questão que me assola nos dias de hoje: será possível fruir do mesmo mundo de formajusta e igualitária quando de um lado estão os poderosos com as suas grandes armas nuclearese os seus cofres impenetráveis, e do outro estão aqueles que, não tendo argumentos nuclearesnem tão pouco orçamento para a sua concretização, se encontram todos os dias numa lutapela liberdade económica, social e política?São estas duas realidades distintas e dialéticas que chocam no caminho da exploração dosrecursos, na forma como os aproveitam e, fundamentalmente, na forma como os distribuem.

Fernando Teixeira