Hoje, enquanto acordava, apercebi-me, uma vez mais, de que nada tinha mudado. A vida em democracia perdeu absolutamente o norte quando os regentes de tudo o que constitui a matriz política que forma as nossas vidas, transformaram o leme da nossa realidade política, e nos presentearam com a vergonha que sentimos no governo. Perdão, no “desgoverno”. A nossa ideia das coisas não chega para relatar fielmente o que se passa. Falhamos em compreender a substância da questão. Nunca alguma das definições que propomos para problemas visíveis consegue ser verosímil. Tudo nos transcende. E é por isso que é tão assustador.

Portugal vive hoje algo que cada vez menos é transitório, e cada vez mais é permanente. Um problema de foro interno, entre todos, sem dúvida, o mais difícil de resolver. Porque não se refere à falta de estruturas ou alicerces sociais, nem à violência humana. Refere-se à essência do português, e da mentalidade social conjunta, que dá corpo a peças da sociedade cujo objetivo é a desestabilização, ser do contra, e enganar o próximo e o estado, como se disso dependesse a vida em si. Rastejámos para um buraco, pelo desleixo e negligência que foi a deriva política dos últimos anos. E não somos perseverantes, nem encarámos as dificuldades impostas pela austeridade que vivemos há uns anos, como um meio para atingir um fim. Não chorámos sem som. E cada vez mais se torna inexoravelmente impossível mudar opiniões relacionadas com a vertente político-económica da sociedade, já que a todos os diálogos acabam com um desorientado “O Sócrates é que lixou isto tudo!”, embrulhado numa desculpa excelente para não se dar ao trabalho de ir votar. Em vão se criticaram falhas do país que chamamos para os nossos corações, pelo quanto se invocam lacunas descaradamente sonoras, contudo ínfimas perante o problema central. Preocupa-me chamarmos a isto evolução, pelo carácter contínuo que essa designação assume.

No entanto, as consequências, essas acompanham a gravidade das falhas. Chegámos ao ponto em que a falta de capacidades e valências para se ser “governo” e “primeiro-ministro” causa mortes. Causa perda de património (que é insubstituível). Causa prejuízos avassaladores, e piora a frágil economia que temos. Vemos o nosso atual governo ser formado com uma jogada de xadrez. Não por mérito profissional, intelectual ou ilustrativo de idoneidade. Alguém quis liderar, como a criança inconsciente se propõe a fazer algo que não consegue, mas quer, por todos os meios, fazê-lo, ignorando o peso do seu falhanço.

Hoje irei deitar-me e nada terá mudado. E, infelizmente, assim será por muito tempo. Enquanto hospedarmos o jantar do WebSummit no lugar onde vivem os grandes nomes de Portugal (a definição de génio permite isso mesmo, que a morte física não contrarie a perenidade). Enquanto a abstenção de voto continuar a ter o inegável peso correspondente a metade da população. Enquanto cerca de metade da população em situação laboral não pagar IRS. Enquanto, a governantes que conduziram o país a um fosso económico, seja permitido que fujam do país, e seja posteriormente solicitado que comentem notícias na televisão nacional. Enfim, enquanto continuarmos a ser os “novos portugueses”. Sim, porque os antigos não eram assim. Os antigos dividiam os oceanos a meias.

 

João Portugal Barbosa