“We need to address the question about socialism and capitalism! (…) It seems to me that these thoroughly ideological and often semantically confused categories have long since been beside the point”. Vaclav Havel, The Natural World as Political Problem: Essays on Modern Man (Prague, 1984)

 

A semântica lida com a rede de significados subjacentes às formas de expressão humanas, neste caso os que subjazem às palavras. A semântica é apelidada de componente vertical da linguagem por oposição à sintaxe, sua componente horizontal que estuda a sequência das palavras e as relações entre si. Uma análise semântica do panorama político analisará a rede de significados que sustenta os seus discursos, fenómenos e tendências. Assim, a semântica política poderá ajudar-nos a compreender o crescimento insidioso de movimentos populistas ou tendência global de desconsolidação democrática (democratic deconsolidation)1.

O discurso político faz-se pleno de oposições e dicotomias, de eixos bipolares de conceitos de significado oposto, sejam eles esquerda-direita, capitalismo-socialismo, riqueza-pobreza – os eixos semânticos. Estes eixos são instrumentalmente manipulados na construção do discurso político, frequentemente para afirmação de uma visão social que sustenta a identidade político-partidária e para efeito retórico, sem que no entanto exista necessariamente real valor semântico que lhes subjaza. Quando se utiliza a palavra “esquerda”, a compreensão da mensagem depende do entendimento partilhado entre o actor político e o seu interlocutor sobre o significado do conceito apalavrado. Depende também da compreensão do seu oposto, neste caso, a “direita”. Na ausência de significado partilhado para qualquer um destes conceitos, ou melhor, perante a pluralidade de possíveis significados, constrói-se socialmente um discurso político semanticamente ambíguo como diz Havel, artificial e teimosamente movediço. Que significa “esquerda”? Que significa “direita”? Que significa capitalismo, socialismo, neoliberalismo? Qual o valor das nossas palavras?

Da perspectiva do actor político, a coarctação da componente vertical da linguagem menoriza o discurso político e a própria essência da democracia. Noutra perspectiva, negligenciada da análise política, coloca sérias questões sobre a solidez das representações mentais que os nossos representantes (e nós mesmos) possuem sobre conceitos fundamentais que representam as “coisas do mundo”: os conceitos sobre a sociedade, a História e a cultura. Da perspectiva dos interlocutores, portanto da sociedade civil, a negligência semântica do discurso político contribui para a sua trivialização e para a acumulação de ambiguidades, micro e meso-fenómenos que, multiplicados, desaguarão por fim no macro-fenómeno da desconsolidação democrática que merece a nossa maior atenção.

Sob este prisma de análise, os neo-populismos ocidentais – em relação simbiótica com a desconsolidação – maximizam o valor semântico do discurso político por comparação aos partidos ditos tradicionais. Utilizam conceitos inequívocos, de significado partilhado com a população: veja-se a linha narrativa nativista nas suas várias facetas (anti-imigração, anti-globalista ou proteccionista) ou a linha anti-elitista, facilmente compreendidas pela sociedade civil dado que enfatizam um eixo semântico claro: nós vs eles. Sem dúvida que outras perspectivas ajudam a compreender a sedução populista, sejam exemplos o contexto socio-económico e a descaracterização cultural das sociedades ocidentais. No entanto, o papel do alinhamento semântico na explicação do neo-populismo vai mais longe: é um factor profundamente enraizado na arquitectura mental do ser humano, nas suas facetas racional e emocional, trazendo consigo segurança psicológica que conforta os eleitores. Os neo-populismos e a sua semântica trazem consigo um apoio artificial à navegação num mundo que se torna exponencialmente mais complexo, dada a aceleração tecnológica e social.

Vários autores propõem abordagens para combater a nova ascensão do populismo. Entre elas, o enriquecimento semântico do discurso político propõe não apenas uma forte reacção ao actual contexto mas consolidação democrática para o futuro das nossas sociedades, enriquecendo o valor das nossas palavras e traduzindo uma maior clarividência nos nossos pensamentos.

 

1 The Danger of Deconsolidation – The Democratic Disconnect, Roberto Stefan Foa & Yascha Mounk, Journal of Democracy, July 2016, Volume 27, Number 3