Francisco Millet Barros

“Se por acaso tivesse vindo da populaça um qualquer olhar tresmalhado, teria encontrado ali um homem não homem, nada mais que um náufrago a quem a água não dera hipótese pelo horrendo crime de se saber molhado (…)”

Quando Gregório Samuel despertou, certa manhã, de um sonho agitado, viu que se transformara, durante o sono, numa nova espécie monstruosa.

Asquerosos pseudópodes digitiformes prolongavam-se a partir de dois tocos escanzelados que, além de cobertos de uma penugem ridícula, eram praticamente inúteis: só sabiam doer, tremer e produzir ruídos pouco naturais. Foi com estes absurdos apêndices que foi capaz de afastar os lençóis para apreciar a extensão da catástrofe: todo ele parecia feito de um couro barato, baço e encorrilhado, que não só oferecia pouca proteção, como aparentava ser ele próprio um dispensável empecilho que ofendia e desrespeitava.

Samuel resolveu permanecer imóvel. Acreditava com segurança que este terror noturno iria resolver-se por si só, como já tinha acontecido no passado com pesadelos piores (lembrava-se bem de se ter imaginado um horrendo escaravelho durante toda uma longa noite). Aproveitou este tempo para absorver mais detalhes sobre a sua recém-adquirida condição e pôde verificar que as suas funções vitais tinham perdido, em certa medida, a sua independência: respirava penosa e conscientemente, e até o seu coração parecia pedir permissão entre batidas como se pudesse, se Gregório assim o entendesse, a qualquer momento parar por tempo indeterminado.

Estando nestas deambulações, foi violentamente interrompido por um som que, sendo já seu bem conhecido, nunca falhava na sua missão de o surpreender. Agressivamente rigoroso, produto da malícia do relojoeiro que decide suspender a sua humanidade para criar um ser sintético de opressoras vísceras metálicas, Gregório e este objeto habitavam éteres distintos. Aproveitando o balanço do doce silêncio que agora se sentia, rolou do seu leito como um grande e velho tronco de ulmeiro que cresceu, isolado, num armazém abandonado. É aqui que Gregório decide que a sua situação, mesmo que aterradora, teria de esperar pela noite para ser devidamente resolvida. Aguardava-o um dia de trabalho na firma, e as consequências de uma ausência laboral, embora não comparáveis à crise em que se encontrava no momento, eram, pelo menos no imediato, mais previsivelmente devastadoras. Sentia fome como nunca tinha sentido fome. Era uma fome real, material, que se sentia não na cabeça como uma ideia, mas no estômago como uma inquietação. Sem tempo sequer para apaziguar este seu grito interior, saiu a correr, rumo ao comboio que partiria numa questão de minutos.

Ao chegar ao veículo, conseguiu embarcar apenas por ter ficado a segurar a porta um velho obeso, de fronte sisuda, carrancuda e pouco convidativa, que respirava de forma muito ruidosa; agradeceu-lhe a gentileza com um hesitante aceno da cabeça que não mereceu qualquer resposta. Entrou em silêncio e sentou-se sozinho.

A viagem era longa. Esperou pacientemente que chegasse a menina que todas as manhãs trazia o carrinho com o café e os bolinhos secos. Observou-lhe os olhos azuis enquanto fixavam, ansiosos, superficiais como só os olhos azuis conseguem ser, as próprias mãos que tremiam mais do que o comboio enquanto vertiam o café escuro. Era muito pálida e estava em constante tensão; justificava permanentemente ao universo a sua própria existência enquanto empurrava, encolhida sobre si mesma, o carrinho de alumínio.

Começou por trincar um dos bolos, e este desfez-se entre os seus lábios como se fosse feito de uma areia grosseira, que foi espalhar-se sobre toda a mesa desdobrável, acoplada ao assento da frente. Sabia intensamente a canela e, apesar de ter sido cozido há vários dias, transmitia uma clara sensação de calor. Engoliu sofregamente mais três bolos iguais e empurrou-os, a custo, com um longo trago de café morno. Levou de novo o copo de papel à boca e deixou-se consumir pelo calor que lhe chegava instantaneamente à ponta dos pés.

Levantou a mão e trouxe uma última vez o pequeno recipiente aos lábios. Desta vez, fechou os olhos e deixou que o líquido amargo lhe banhasse a boca por algum tempo, antes de finalmente se decidir a deixar que este escorregasse até ao seu destino. Ficou muito tempo imóvel.

Samuel foi obrigado a abrir os olhos por um ruído de grande agitação que vinha da parte de trás da carruagem. Uma criança tinha tropeçado e chorava no chão. Quem a amparava e consolava era a menina que vendia os bolinhos. No seu rosto o sorriso era morno como o café que servia e os olhos azuis, profundos, convidavam a um mergulho sem retorno. Pegou firmemente na criança, que nela encontrou imediatamente conforto, e devolveu-a ao seu lugar. Gregório pôde vê-la olhar o menino uma última vez antes de voltar a enrolar-se sobre o carro do café, que continuou a arrastar até ao final da carruagem.

Um pouco perturbado pela estranheza do que acabara de testemunhar, Gregório voltou a olhar em frente. Sentia-se agitado, curiosamente enérgico, seria talvez consequência do café que engolira, ou talvez fosse devido à intensa noite que tivera, ou até porventura resultado da até agora tão atípica manhã.

Levantando um pouco mais os olhos, como que em busca de respostas, Samuel deparou-se com um cocuruto. À direita desse, outro. Na verdade, olhando em frente, deparava-se-lhe uma dúzia de cocurutos, alguns grisalhos, um par de calvos (um assumidamente e outro envergonhadamente), alguns tão cuidados como outros desgrenhados. Sob cada escalpe, sem exceção (e aqui estava a revelação), um mundo. Dentro do mundo uma criança que sobrevive como pode, construindo e destruindo casinhas com os galhos que vai encontrando no extenso areal a que a confinaram, quando não se ocupa mirando o horizonte. Os olhos de Gregório procuraram instintivamente o obeso carrancudo que lhe abrira a porta do comboio. O velho, sentado atrás, encaixava desajeitadamente no assento que, era evidente, não fora pensado para acomodar aquele tipo de corpos. Segurava na mão direita, dobrando-o pela contracapa, um pequeno livro de escrita minúscula em que se deixava absorver na perfeição. Os seus olhinhos percorriam apressadamente as finas carreiras de letras e pareciam voltar atrás uma e outra vez, fervorosos, sedentos de cada ideia, pensamento, imagem, fosse o que fosse que estivesse derramado naquelas páginas amarelentas. Toda esta frenética visão provocava em Samuel uma agitação que era também ternura, um sobressalto de pavor amoroso e um grito de amor pavoroso que lhe saía como que pelas têmporas que, taquicardíacas, estremeciam ao sentirem-se, por fim, mergulhadas na água em que já haviam nascido mas cuja presença passara, por óbvia e constante, desde sempre despercebida; Gregório não podia mais estar sentado e levantou-se, tremiam-lhe as pernas e tremia-lhe o bom senso enquanto se dirigia para a porta mais próxima, passando pelo menino que a rapariga dos olhos azuis apanhara e que agora o mirava, retraído pela passagem do homem tresloucado. Agarrou o puxador, mesmo enquanto a porta se fechava, e saiu para uma estação que não era a sua, dessas estações que são de passagem, pouco recomendadas. Cambaleou, exausto, enquanto as carruagens se afastavam a velocidade crescente, mas ainda conseguiu ver, de relance, pelas janelas, Gregório empurrando o carrinho de alumínio, Gregório dobrando o livro pela contracapa, Gregório procurando sossego no colo da mãe.

Procurou um banco onde pudesse sossegar um pouco, mas, incapaz de continuar, deitou-se no chão, encostado a uma parede pejada de grandes anúncios publicitários. Ali ficou, inerte, de olhar vidrado em frente, focado precisamente algures atrás do caudal de gente que passava de e para os sujos veículos que por ali paravam. Se por acaso tivesse vindo da populaça um qualquer olhar tresmalhado, teria encontrado ali um homem não homem, nada mais que um náufrago a quem a água não dera hipótese pelo horrendo crime de se saber molhado; teria encontrado, também, logo acima do ex-homem, em letras amarelas enormes sobre fundo castanho-creme, “Não perca mais tempo nas suas manhãs. Beba Coffix, o novo café instantâneo 100% arábica”.